Horácio Pina Prata fala de substituição de Carlos Páscoa

. sexta-feira, 12 de outubro de 2007
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“Currículo do dr. Encarnação tem sido de traições”
A troca de presidente na Concelhia do PSD foi a “gota de água” para Horácio Pina Prata, que admite a possibilidade de se candidatar à Câmara em 2009. Nesta entrevista, o vereador acusa Carlos Encarnação de quebrar compromissos por questões de agenda política pessoal
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Diário de Coimbra (DC) - Considera normal que a mudança de líder provoque tanta turbulência nas estruturas locais do PSD?
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Horácio Pina Prata (HPP) – É preciso dar um novo impulso ao partido, virá-lo para a sociedade civil e para os militantes de base. Portanto, se as bases assumiram um movimento de mudança, é óbvio e importante que os líderes locais que foram eleitos por essas bases sintam um movimento de mudança. É preciso fazer essas leituras políticas e considero muito natural que isto aconteça. Em Coimbra, o que aconteceu é que o presidente da Concelhia candidatou--se há um ano, demonstrou que fez mal a Coimbra, e por isso se demitiu. Fez um mau serviço pela simples razão que estava a fazer um percurso político em Soure e veio para aqui atrapalhar. A própria entidade em que estava a trabalhar quase o requisitou agora para sair da política. A sucessão foi de natureza quase dinástica – e não pode ser.
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DC – É particularmente crítico na substituição de Carlos Páscoa…
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HPP – Vejo isto com grande preocupação porque, infelizmente, veio dar razão às preocupações que tinha quando me candidatei há um ano. O partido precisava de mudar, virar-se para a sociedade civil e não fechar-se em pseudo-relações de amizade ou familiares. Para mim, a política tem que ser independente das relações familiares. Passado este período, viu-se que estava algo de cinzento a acontecer. Coimbra não pode tolerar que se faça uma política local de facção e o presidente da Câmara tornou-se um político de facção. Isto não se pode transformar numa ilha do Burundi, um principado ditatorial e dinástico. Nota-se a preocupação da sociedade civil pelo que está a acontecer em Coimbra. Caiu um presidente da Concelhia com um subterfúgio, fez--se uma eleição contra os estatutos e elegeu-se, por acaso, o filho do presidente da Câmara.
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DC - Mas se fosse outro vice-presidente eleito, também consideraria grave?
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HPP - Ao haver uma demissão do presidente da Concelhia, deveria haver solidariedade da equipa. O dr. Carlos Páscoa e a Concelhia apoiaram Marques Mendes, portanto, deveriam ter feito uma leitura política. Isto é um caso “sui generis” em termos nacionais, em que o presidente da Câmara é o pai e o presidente da Concelhia que suporta o presidente da Câmara é o filho. Será que com base nesta actuação, o pai vai destruir o filho? É que já tem destruído um conjunto de políticos jovens que se vinham afirmando em termos nacionais. Tinha uma admiração pelo dr. Carlos Encarnação porque saiu de Coimbra e assumiu-se como um político nacional. Infelizmente, quando se foi buscar o político nacional para mudar alguma coisa em Coimbra, correu bem durante o primeiro mandato, e na mudança para o segundo conseguiu destruir jovens políticos que tinham já um percurso, casos do dr. Nuno Freitas e da dr. Teresa Violante. Há uns anos Coimbra teve as referências de Fernando Nogueira, Dias Loureiro, Mota Pinto e Barbosa de Melo e o que Carlos Encarnação está a fazer é uma política caseira para se servir a ele próprio, à família e aos amigos.
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DC – Qual a razão dessa mudança do primeiro para o segundo mandato?
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HPP - Vou contar tudo nesta altura porque é importante. Quando me lançaram o repto de estar numa lista que queria mudar Coimbra, com um projecto estratégico de desenvolvimento, aceitei porque lutava nessa altura contra o marasmo. Por amar e ter nascido em Coimbra, aceitei o repto. Tínhamos uma equipa que fazia, sabia fazer e que fez. Fez-se desenvolvimento, atraiu--se investimento, prepararam-se projectos estruturantes. Um dos compromissos que assumi para continuar na equipa no segundo mandato, e disse-o claramente ao dr. Carlos Encarnação, era de que entendia o desenvolvimento para Coimbra como um projecto de equipa. Até passei de uma situação de meio tempo para tempo inteiro. O projecto tinha que ter continuidade e ser uma prioridade absoluta. Infelizmente, quando tomou posse para o segundo mandato, o presidente da Câmara disse logo uma coisa que não se deve dizer a uma equipa: que não se recandidatava. Não pode brincar com Coimbra e com as pessoas e não pode pensar que só ele que manda. O destino de Coimbra tem que passar pelos conimbricenses, não por um ser pensante que decide a seu bel-prazer. Atingiu o objectivo do segundo mandato com maioria e passou automaticamente na tomada de posse a quebrar os compromissos que estabelecera comigo. A segunda quebra de compromisso diz respeito à Águas de Coimbra, projecto que gerou uma nova empresa, a Águas do Mondego, um conjunto de investimentos, e resolveu um problema de abastecimento e saneamento. E que também ajudou à reeleição do dr. Carlos Encarnação. Houve um estudo económico que dizia que os aumentos tinham determinadas características no tarifário e contra tudo isso quebrou outro compromisso, pois em vez de aumentar o tarifário 5%, aumentou 12,5%. Abstive-me na votação e disse que não concordava.
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DC – Considera, então, que Carlos Encarnação está a enganar os conimbricenses neste mandato?
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HPP - Está a enganá-los, porque está a fazer um projecto com base numa agenda política pessoal e isso é grave. Um presidente da Câmara não pode fazer a sua agenda política pessoal e as coisas ao seu bel-prazer. Mas voltando atrás, a segunda quebra de compromisso levou-o até a fazer chantagem. Tentou fazer isso comigo, escrevendo-me a dizer que me retirava a vice-presidência, mas não teve coragem de o fazer.
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DC - Em entrevista recente ao Diário de Coimbra, o presidente da Câmara ficou em silêncio em relação a si. Como interpreta isso?
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HPP - Porque não tem razão. Se é presidente da Câmara, deve--o a mim e a outras pessoas que contribuíram para que fosse eleito. O sr. presidente da Câmara não deve dizer o que disse nessa entrevista, ao afirmar que mexia na equipa. E a marca de Coimbra é a dele? A marca deve ser o que o povo decidir, não o que ele decidir. Mas houve uma terceira quebra de compromisso, com o apelo que fez ao partido. O dr. Carlos Encarnação saiu fragilizado do congresso em que Marques Mendes venceu, tendo até saído dos órgãos nacionais. Quando anunciei a minha candidatura à Concelhia, o presidente da Câmara estava ao meu lado, estava também o presidente da Concelhia cessante, o presidente da Mesa da Concelhia e o presidente da Assembleia Municipal. Disponibilizei-me face ao apelo do dr. Carlos Encarnação, que a partir desse momento, fez um movimento cinzento, e que agora veio demonstrar-se, de traição. Sinto--me traído, pois foi chamar o seu ex-chefe de gabinete para se candidatar contra mim, e pôs o filho na lista, que entretanto tinha sido mandado embora da Figueira Grande Turismo. Talvez pensasse que mais tarde ou mais cedo haveria um golpe palaciano e assim seria possível ir a um terceiro mandato. Várias pessoas sentem-se incomodadas com isso e dão-me razão. Mas quanto à entrevista, que condições tem o dr. Carlos Encarnação para voltar a ser presidente da Câmara, quando diz que mexia na equipa. Como se sentem os vereadores? Será que vai retirar a confiança política ao dr. Marcelo Nuno, como fez comigo, por ele ter apoiado outro candidato? Se calhar vai. As pessoas não podem enganar os conimbricenses e o dr. Carlos Encarnação tem idade e experiência suficientes para perceber que a seguir a ele não é o caos. Não vou deixar.
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DC - Às vezes também lhe apetece ser candidato à Câmara, mesmo contra Carlos Encarnação?
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HPP - O que sinto nesta fase é muito simples: é um apelo da sociedade civil, incomodada com o caminho que Coimbra está a seguir. É óbvio que este espírito de disponibilidade que sempre tive…
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DC - Se mantém até às autárquicas de 2009…
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HPP - Estarei sempre disponível para a sociedade civil. Não posso estar disponível é para a mentira, a traição e o engano. Em momentos difíceis fui solidário com o dr. Carlos Encarnação. Eu poderia ter votado contra numa série de situações e abstive-me ou não participei nas votações. Agora não me podem pedir que com a retirada de confiança baseada em pressupostos errados e dinásticos, que continue a ser solidário. Com mais tempo, tive oportunidade de fazer uma análise ao currículo do dr. Carlos Encarnação, que tem sido de traições. Já saiu do partido há uns anos, foi para o CDS, e depois voltou. O meu número de militante é o 6 mil, o dele é o 60 mil, portanto, não aceito regras de pessoas que já abandonaram o partido por interesses pessoais e curriculares. Tive admiração por ele no primeiro mandato, mas nesta fase está a fazer mal a Coimbra. A fazer o que Manuel Machado fez no seu último mandato. Ele tem que respeitar os jovens quadros do partido e a visão empreendedora do primeiro mandato está parada porque começou a destruir pessoas.
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DC - Mas equaciona, ou não, ser candidato à Câmara?
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HPP - O apelo é constante e sinto-me de consciência tranquila para seguir o meu percurso. Há um ano deixei um plano estratégico de desenvolvimento económico que o dr. Carlos Encarnação pôs na gaveta. Como acredito na democracia participativa, considero a possibilidade de no futuro ser candidato à Câmara de Coimbra.
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DC - Até lá o que vai fazer? Mostrar os seus projectos?
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HPP - Exactamente. Temos o exemplo da via verde do investimento, posta de lado. Já se está a tratar a obra e o muro como um projecto de investimento. Sinto-me triste quando o parque de Taveiro está no estado de degradação em que está. Quando o parque de Eiras anda com burocracias. Quando o Coimbra iParque se transforma numa arma de arremesso político – e não lhe vou desculpar isso, porque o que fez é de uma canalhice perfeitamente atroz.
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DC – É por não se sentir obrigado a ser solidário com ele que agora faz oposição ao Executivo?
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HPP - Sou a consciência tranquila da verdade. Os meus pais sempre me disseram que acima da amizade e dos compromissos está a verdade. Eu não podia enganar os conimbricenses com os estudos económicos das Águas de Coimbra. E o mesmo se passa com a Derrama, a mais alta do país. O dr. Carlos Encarnação tem que ser responsabilizado por isto.
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DC - E espera contar com o apoio de Luís Filipe Menezes?
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HPP - O dr. Luís Filipe Menezes é um homem onde me revejo porque é empreendedor e fez de Gaia a verdadeira terceira cidade do país. Se critiquei o dr. Manuel Machado por repelir os investidores, tenho que criticar, por uma questão de coerência, o que o dr. Carlos Encarnação está a fazer. Coimbra tem que ter uma nova esperança. O presidente da Câmara tem que defender princípios e valores dos conimbricenses. Se os governantes são socialistas, tem que se dialogar com eles. Não é ter uma agenda própria. Tem que se ir ao Governo, sensibilizar, não é atacar o eng.º Sócrates. O dr. Carlos Encarnação está a colocar projectos na gaveta, porque Coimbra já não lhe interessa. Veio agora fazer esta inflexão porque se calhar teria um lugar num sítio qualquer se Marques Mendes tivesse ganho. Mal é o político e o pai que utiliza o filho como trampolim para ambição pessoal.