Corrente de amizade dá força

. terça-feira, 10 de março de 2009
  • Agregar a Technorati
  • Agregar a Del.icio.us
  • Agregar a DiggIt!
  • Agregar a Yahoo!
  • Agregar a Google
  • Agregar a Meneame
  • Agregar a Furl
  • Agregar a Reddit
  • Agregar a Magnolia
  • Agregar a Blinklist
  • Agregar a Blogmarks


«Foi espectacular!». As palavras são do jovem Fábio e encerraram a “Festa da Amizade” que mobilizou Vila Nova de Anços. A Casa do Povo encheu, melhor, abarrotou de gente, que quis marcar presença e dizer ao jovem “estamos contigo, hoje e sempre”.


Foi uma iniciativa promovida por um grupo de jovens, amigos de Fábio, que fizeram questão de juntar toda a gente, numa vasta corrente de apoio e solidariedade, com o objectivo de lhe «dar força» para mais esta prova dura que se avizinha, como fez questão de repetir, ao longo de toda a noite, o jovem Fernando, “apresentador de serviço” do espectáculo. «Uma mensagem de apoio para que tudo corra bem», sublinhou.


Entre muita emoção, muitos aplausos e algumas lágrimas, falou-se de solidariedade na Casa do Povo de Vila Nova de Anços. Mas, mais do que isso, viveu-se solidariedade e criou-se uma corrente de força precisamente para dar força ao jovem, filho da freguesia, que se prepara para partir rumo ao Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, onde vai ser submetido a um tratamento de combate à leucemia que o atinge há mais de um ano. Aliás, foi há cerca de um ano que começou uma larga cadeia de solidariedade, que já juntou milhares de pessoas e continua a aglutinar outras, em busca de um dador compatível com o Fábio, que permita efectuar um transplante de medula. O dador não foi ainda encontrado, mas foi equacionada uma solução de recurso, através de dois cordões umbilicais, recolhidos num banco estrangeiro, que já estão reservados para o jovem de Vila Nova de Anços. Março era, de acordo com o prognóstico da equipa médica que o acompanha, o mês destinado à sua transferência para Lisboa. Todavia, e uma vez que esta é a solução possível, mas não a ideal, os médicos entenderam esperar um pouco mais, na expectativa que, entretanto, seja encontrado um dador compatível.


Mas, tendo em perspectiva a viagem para Lisboa já este mês, um grupo de amigos, todos adolescentes, empenhou-se em organizar uma iniciativa onde fez questão de mostrar ao jovem o quanto gostam dele, procurando dar-lhe força para mais esta jornada e coragem para enfrentar e vencer este novo desafio. «Fábio, vais para Lisboa e ficamos à tua espera. Queremos-te cá por mais 50, 60 ou 70 anos», disse o apresentador, fazendo eco do sentimento da vasta mole humana que encheu por completo as instalações da Casa do Povo.


Os jovens organizadores pensaram em tudo e o evento teve um brilho único, com a actuação da Orquestra de Sopros da Filarmónica de Vila Nova de Anços, do Grupo Infantil de Pauliteiros de Vila Nova de Anços e do tenor Luís Pinto, da Figueira da Foz. Ouviu-se ainda a voz do fado, com a presença de Eduardo e Tina. Mas mais do que um espectáculo, a Festa da Amizade – que se prolongou pela madrugada – foi de “muitos miminhos” e, sobretudo, muitas surpresas para o jovem.


Com uma família muito ligada ao desporto e ele próprio praticante de Futsal, o Fábio foi mimado com um conjunto de lembranças de “encher o coração”. As surpresas começaram quando o responsável do Grupo de Pauliteiros chama o jovem ao palco, para que o irmão, Daniel, que faz parte do grupo infantil, lhe entregasse os paus com que dança. Foi o primeiro de muitos abraços que encheram a noite de calor humano, de fé e esperança. Muitos se seguiram, pois parece que ninguém quis ficar de fora desta grande prova de amizade e carinho.


Clubes desportivos solidários


Maria Victor, médica e doente, foi a primeira a subir ao palco. Amiga pessoal de Carlos Pereira, adjunto de Paulo Bento, e sabendo da paixão do Fábio pelo Sporting, trouxe consigo uma bola e uma camisola, ambas assinadas por todos os jogadores do plantel sportinguista. O Clube da Praia da Leirosa também levou uma bola e uma camisola e o irmão do Fábio, Daniel, entregou-lhe a camisola com que jogou no sábado, no clube de infantis do União Desportiva Vilanovense, com a qual marcou o seu 72.º golo deste campeonato. Uma bola do clube, também assinada por todos os jogadores, enriqueceu o simbolismo da oferta. O jogador Carlitos, da Naval 1.º de Maio, fez questão de fazer chegar a sua camisola ao Fábio e a solidariedade da equipa de futebol da Académica de Coimbra também se fez sentir. Camilo, vice-presidente das camadas jovens, representou os jogadores, que não puderam estar presentes, explicou, devido à gala de homenagem, que também se realizou nessa noite. Depois de uma camisola do guarda-redes Pedro Roma, oferecida pela equipa da Briosa numa das suas visitas ao jovem, quando este estava internado nos Hospitais da Universidade de Coimbra (e que figurava, entre muitos outros troféus, como elemento decorativo das paredes da casa do Povo), Camilo fez saber que a equipa convida o Fábio a passar um dia inteiro com o plantel e assistir, depois, ao jogo.


Da União Desportiva da Tocha vieram mais lembranças para uma noite de mimos e a Casa do Porto de Soure levou ao palco e entregou ao Fábio a última camisola com que realizou o seu último jogo de futsal. Os amigos, que de corpo e alma se dedicaram aos preparativos e organização desta “festa da amizade” subiram ao palco, um a um, e num postal colectivo deixaram a sua mensagem de apoio para que, «depois de tantas lutas que já passastes e barreiras que já ultrapassastes, venças mais esta» que se aproxima, com a deslocação a Lisboa. E porque nesta viagem a sua presença física não será fácil, o grupo ofereceu-lhe uma moldura digital, com as respectivas fotos, porque “os amigos estão sempre presentes”. Também a jovem Filipa subiu ao palco para lhe entregar uma camisola, num momento de particular emoção, e as empresas Decatlhon e a Rádio Popular, através das suas lojas de Taveiro, quiseram deixar sua lembrança.


A terminar, Carlos Gomes subiu ao palco para, comovido, dar testemunho da mensagem dos pais. «Falta a final», disse “Gitas”, depois de falar nas lutas que o filho já travou contra a doença. «O adversário não se sabe qual é, mas vais ganhar». «Tens sido um grande filho, não só de há um ano para cá, mas há 16 anos. És o filho e o irmão que quaisquer pais e irmãos gostariam de ter», disse, comovido. Carlos Gomes agradeceu ainda ao grupo organizador, confessando que chegou a pôr em dúvida que conseguissem concretizar o evento. Mas a noite de sábado provou o quanto eram descabidas as suas dúvidas. Por isso, pediu desculpa e, agradecido, deu os parabéns ao grupo. Grupo que tudo fez em segredo, sem que o jovem Fábio e a mãe, Isabel Mendes, desconfiassem sequer, pois só na véspera os dois foram avisados desta noite longa de emoções e amizade.
.
In Diário de COimbra